Segunda-feira, Junho 28, 2004

"Pois não posso, não devo, não quero viver
Como toda essa gente insiste em viver,
Não posso aceitar sossegado
Qualquer sacanagem ser coisa normal."

(Milton Nascimento in "Bola de meia, bola de gude")


Renascendo das cinzas

(Flavia Lopes, junho de 2004)


Tendo em vista a "abdução de posts", creio que seja necessário explicar o motivo pelo qual estive em letargia. Difícil é encontrar uma resposta convincente (risos).
A bem da verdade, concentrei-me no Loucura Sativa por considera-lo o meu "blog pessoal" - em tese, há fundamento. Porém, nada me impede de mostrar dois lados da mesma moeda. O Damsel sempre possuiu um teor crítico, raramente passo o endereço adiante. Evito longas discussões histriônicas, retrocessos, preconceitos e etcs.
Após tantas reviravoltas e desenlaces bem sucedidos afirmo que estou vivendo, senão a melhor, a fase mais produtiva e intensa da minha existência.
Felicidade não precisa e nem deve ser transitória e sim um engrandecimento constante, uma escada interminável. Ao galgar cada degrau vencemos bloqueios pessoais, fatalismos, driblamos o medo, a desconfiança e a baixa auto-estima.
Temos a capacidade intrínseca de transmutarmo-nos em tudo o que nosso potencial nos agracia. É preciso ter olhos para ver, olfato para inspirar e tato para sentir com os dedos nus o universo de possibilidades que muitas vezes cruzam o nosso caminho.
Ser feliz é um estado de espírito? Talvez. Na minha concepção, alegria, êxtase, delírio são conquistas, maturidade. Representam o tanto de desenvolvimento que cada um adquiriu ao longo dos anos. Manter os sentidos apurados expande o horizonte.
É preciso amar, em letras garrafais. Amar a vida como um todo. Amar o menininho que te pede um salgado na pastelaria, os enjeitados famintos cobertos de trapos nas ruas, os artistas e poetas incompreendidos, os que sofrem. Amar todo e qualquer humano em luta constante por liberdade e aceitação, os entes e amigos que sucumbiram perante a violência capitalista. Amar cada forma de vida, cada ser.
Em oposição, o ódio é lento, venenoso. É ressentimento e caos. Dilata as narinas, a hipertensão se engalfinha com o bom senso. Questiona vínculos e idéias, a transição entre o pensamento racional e a libido. Aflora sensações primatas, transcende de acordo com a circunstância.
Quem nunca sentiu uma raiva tão intensa capaz de ultrapassar o limite da consciência? Fraqueza não é ter ojeriza, não é abdicar a ira e sim diferenciar quando é necessária.
A animosidade é, normalmente, fugaz (exceção feita a distúrbios psicológicos, violência física ou moral). Revela de forma explosiva todo desagravo através da língua ferina. Confessa o que o eu-social repreende e urge.
Ódio desmedido, sem razão, imprudente, vingativo, brutal, é retrocesso, doença. Em certos instantes, pessoas boas necessitam de tal sentimento para repensar tudo o que vivenciaram e concretizar uma ação real a favor de si mesmos e dos que amam.
Não há causa sem repúdio ao lado agressor. Não há mudança sem que estejamos aptos a desmascarar os que infligem dor e mágoa. Não temos a inspiração divina para a benevolência irrestrita, somos imperfeitos. Falhas e acertos engrandecem o espírito. A guerrilha subdivide-se em aversão e amor. Tudo o que é vital e nos move jamais deveria transmitir passividade, inércia ou, senão, nos transformaríamos em joguetes inexpressivos, sem voz ativa, engolindo em seco, anulando quem somos.
O ódio é necessário desde que não o transformemos no clímax da evolução. Descobrir como balancear ternura e cólera nos leva a progredir. O princípio da longa caminhada em busca de autoconhecimento emana a forma como nos portamos e interagimos. Negar que o amor coexiste lado a lado com o ódio é abolir a própria condição humana.

"Não quero o que a cabeça pensa,
Eu quero o que a alma deseja.
Arco-íris, anjo rebelde, eu quero o corpo:
Tenho pressa de viver"

(Belchior in "Coração selvagem")

Diário indeclarável

(Flavia Lopes, maio de 2004)


Há dias em que paro em silêncio,
Evito falar, evito pensar.

Há dias em que a mais nítida ira
Avassala meu desabafo.

Há dias em que recito baixinho,
Degustando cada verso.

Há dias em que procuro abrigo,
Revelando o eu-íntimo.

Há dias em que corpo desperta,
Sucumbindo à poesia.

Há dias em que o pulso resgata
Fantasias insaciáveis.

Há dias em que apenas escuto,
Outros, confesso danos.

Há dias em que me desoriento
Incendiada sob o luar.

Há dias em que devoro o beijo
Com total voracidade.

Há dias em que busco o exílio
Em carícias tórridas.

Há dias em que me distancio,
Tolhendo a verdade.

Há dias em que me transformo
Na arma mais letal.

Há dias em que perco a linha,
Vocifero, enfrento.

Há dias em que não me calo,
Afio as garras, firo.

Há dias em que a pira sexual
Concede a luxúria.

Há dias em que me esqueço
De tudo e de nada.

Há dias em que a poesia urge,
Engolindo palavras.

Há dias em que terra, ar e fogo,
Substantivam trovas.

Há dias em que me questiono -
Possuímos o amor?

"Eu faço samba e amor até mais tarde,
E tenho muito mais o que fazer,
Escuto a correria da cidade, que alarde!
Será que é tão difícil amanhecer?"

(Chico Buarque in "Samba e amor")

Flavia Lopes, revelado às 5:24 AM
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Quinta-feira, Abril 29, 2004

"Nas grandes cidades,
No pequeno dia-a-dia,
O medo nos leva tudo,
Sobretudo a fantasia,
Então erguemos muros
Que nos dão a garantia
De que morreremos cheios
De uma vida tão vazia"

(Engenheiros do Havaí in "Muros e Grades")


Amor

(Flavia Lopes, abril de 2004)


Acredito que a sociedade, não como um todo mas em sua grande maioria, está perdida. Não me refiro a avanços tecnológicos e científicos, neste ponto creio que a evolução nos serviu para alguma coisa. Refiro-me a questões de caráter puramente humano, desde as prosaicas formas de tratamento até os sentimentos mais complexos e dinâmicos.
Quando minha avó faleceu, há cinco anos atrás, lembro-me que, para evitar contato com os demais parentes e amigos antes do velório saí caminhando pelo cemitério. Mórbido? De forma alguma. O local é bonito, agradável e não aprisiona almas. São túmulos e jazigos criados a fim de prestar a última homenagem aos que já não estão mais entre nós. Percebi que diversos casais, em sua maioria idosos, foram enterrados lado a lado e assustei-me ao observar as datas de morte, um não vivera mais do que meses ou poucos anos sem o outro.
Lembrei de pronto a belíssima prosa em verso de nosso poetinha camarada, Vinícius de Moraes: "Para viver um grande amor, é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto - para não morrer de dor" (Para viver um grande amor).
A sensação de beleza e fidelidade embalou-me e feriu ao mesmo tempo. Já naquela época, 1999, o AMOR, em letras capitais era sinônimo de comodismo, relação promissora, quase um negócio criado para satisfazer as necessidades físicas e econômicas ou para fins sociais e ostentação.
Cinco anos depois, o quadro agravou-se de tal maneira que todos se declaram perdidamente apaixonados ao menos umas 10 vezes por ano. A degradação do mais belo sentimento se transformou em algo prosaico e insosso, mudam de parceiro como trocam de roupa.
Desta feita, o que vemos? A traição em alta, uma forma de esquecer o vínculo incapaz de saciar o vazio corrosivo.
E assim caminha a humanidade, sem amor próprio, sem ambições espirituais e sem afeto.
A desagregação do amor resulta tanto em crimes passionais quanto na agressão contra amigos, familiares e ao objeto de desejo. A força bruta e a violência cresceram a ponto de sufocar todo e qualquer resquício deste elo sagrado.
É verdade, nem todos pensam da mesma forma. Há indivíduos fantásticos neste planeta, se contrário fosse a existência não faria o menor sentido. Há os que tocam a própria vida mantendo a integridade e o senso de justiça; os que se deliciam com um belo poema, filme, peça, livro ou música - enfeitiçados. Há os que trabalham com afinco sem permitir, no entanto, qualquer exploração; os que estudam, tocam, escrevem, sorriem, choram, reagem. Há os que dão o sangue por uma causa nobre e os que são solidários, amigos de longa data ou novos e tantos outros que jamais conheceremos...
Pensamento global não significa visão única.
São poucos os que se importam com os demais, enfrentam, intensificam e canalizam as forças, amam e sabem amar... contudo estes valem por dez mil acéfalos desagradáveis, fúteis e cruéis. É a minoria que renova a fé na humanidade e impede a sua mais completa descaracterização cultural.

"Vai meu irmão, pegue esse avião
Você tem razão de correr assim deste frio
Mas veja o meu Rio de Janeiro
Antes que um aventureiro lance mão
Pede perdão pela duração desta temporada
Mas não diga nada que me viu chorando
E pros da pesada diz que eu vou levando"

(Tom, Vinícius e Chico Buarque in "Samba de Orly")

Ode ao Rio de Janeiro - em tempos de guerra

(Flavia Lopes, abril de 2004)


Rio de Janeiro, meu vício,
Meu degredo e princípio,
Ninho inseparável, cio,
Sem ti estanco, não crio,
Perco a inspiração, deliro.
És o esconderijo, meu retiro,
O segundo berço terreno,
Sem ti, adoeço, tremo,
Morro de saudades,
Vejo a terra de Hades,
Não há rumo, porto fixo,
Porque, sem ti, não existo.
Metrópole devastada, pagã,
Insisto em manter-me sã,
Plena da tua ausência,
Distante de tua essência,
Família, montanhas, trovas,
Deixo aos teus pés as provas,
E a minha servidão indeclarada,
Sou a filha inconsciente, ousada,
Por mais que teu furor retalhe,
Abra os braços, me embale,
Já não sou mais criança,
No final, há esperança,
Reverencio-te, ferida:
És meu consolo e vida.

Caros amigos

(Flavia Lopes, abril de 2004)


Há os amigos que lêem
Outros que escrevem
Alguns muito distantes
Poucos ao meu lado
Há almas que escutam
E tantas confidentes
Companheiros de luta
Artistas escaldados
Veias consangüíneas
Os remanescentes
Personas necessárias
Tropas de guerrilha
Os que me incentivam
Amam, repreendem
Vampiros incansáveis
Desafiando insônias
Ativistas conscientes
Os revolucionários
Há amigos que tocam
E os introspectivos
Irmãos ensandecidos
Velhos comparsas
Alguns desaparecidos
Os que telefonam
Há muitos brilhantes
Outros politizados
Ecologistas, Boleiros
Fraternos e primos
Ébrios, mosqueteiros
Rebeldes, cinéfilos
Incorruptíveis, belos
Sensitivos, dóceis

- A vocês, caros amigos,
Ofereço este poema

*Em homenagem aos meus verdadeiros amigos: Flávio, Fred, Léo, Marcelo, Lucas, Naty, Link; meus primos Daniel e André (São Paulo) e Pat (Rio de Janeiro) e meus irmãos, Cláudia e Alexandre.

"Meus bons amigos, onde estão?
Notícias de todos, quero saber
Sobre nossos ombros
Aprendemos a carregar
Toda verdade que faz vingar"

(Barão Vermelho in "Meus bons amigos")

Flavia Lopes, revelado às 1:35 AM
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Terça-feira, Fevereiro 03, 2004

"E a lona rasgada no alto
No globo artistas da morte
E essa tragédia que é viver
E essa tragédia
Tanto amor que fere e cansa".

(Cordel do Fogo Encantado in "O palhaço do circo sem futuro")


Para o ambiente:


- Estantes repletas de livros: prosa, versos, história, egiptologia, etc, etc, etc
- Uma rede ao ar livre
- Pilhas de jogos de tabuleiros e rpg's
- Filmes e mais filmes (de preferência cinema oriental e europeu)
- Cd's (os que possuo e os que ainda não encontrei)
- Janelas sempre abertas
- Meu computador (futilidade ou não, se não fosse por "ele" não estaria aqui)
- Uma boa vodka polonesa ou russa (ninguém é de ferro, não é?)
- A tevê sempre ligada durante as partidas do meu time (viu, nem citei que precisam ser jogos do Vasco. Ops...!)
- As bugigangas e presentes que me são caros, imbuídos de recordações
- Incensos, velas aromáticas, essências
- Espelhos (de preferência sobre ou perto da cama)
- Copos largos (como os de whisky mas sem a bebida - yargh)
- Travesseiros e mais travesseiros
- Fichários, canetas, lapiseiras para os blackouts e faltas de luz
- Uma cortiça com fotos de amigos, parentes, filhos (lê-se gatinhos) para abençoar o recinto
- Minhas pastas de recortes onde guardava tudo a respeito do Vasco desde os meus 11 anos que desapareceu assim como algumas fotos e cartas
- Ok, podem sacanear, mas Dindin, meu ursinho, já faz parte da minha história. Ganhei-o de presente em 1984 (é velhinho, mas continua fofo)

-Para a poetisa:

- Trinny, Pushkin, Vlad, Othello, Mitoa e Noel transitando felizes, ronronantes e sadios
- Inspiração
- Poesia, as que crio e outras tantas que embalam meu sono e apaziguam tristezas.
- Lutar para que a violência contra animais (atropelamentos, crueldades, vivissecções...) receba a punição merecida, ultrapassando as barreiras do preconceito. Talvez descubram que um bicho é mais fiel, companheiro e amigo do que a maioria dos seres humanos. Ah, sim, o amor é incondicional...
- Longos diálogos com pessoas que não apenas me compreendem e sim adotam as mesmas diretrizes morais, injetando força, ânimo e resistência
- Desabafar através da escrita
- Amor: fraterno, materno e hormonal
- Sonho e fantasia, transportando-me a lugares distantes, eras e universos paralelos. Basta de pesadelos
- Beijos molhados, roubados, de estalo, longos, distribuídos, sensuais, tórridos, apaixonados
- Um homem inteligente, culto, sensível, cúmplice, ecologista, incorruptível... e selvagem (para dividir o espaço e o leito)
- Identidade e entrosamento
- Sexo, sem tabus, clichês: lúbrico, intenso, rápido, cadenciado, de total entrega
- Carícias múltiplas
- Silêncio (para os momentos de introspecção)
- Liberdade plena
- Respeito. O que nutre e fortalece relacionamentos, galga e supera qualquer obstáculo
- Auto-suficiência monetária
- Velar o sono de quem amamos e despertar percebendo que olhos incansáveis protegem o meu descanso
- Cruzar a arrebentação fundindo-se ao mar
- Harmonia mental e física
- Conhecer a si mesmo, dia após dia e assombrar-se como se cada instante, minuto, hora trouxesse um quê de novidade e cada sopro valesse a pena

"¡SEXO! Libertad
¡SEXO! Anarkía
Nadie te debe imponer jamás
Haz lo que quieras con tu cuerpo en plena libertad"

(Ska-P in "Sexo y libertad")

Infravermelho
(Flavia Lopes, janeiro de 2004)


Escreveria poemas à luz de velas
Sorveria teu corpo por meses a fio
Tudo isto eu faria se fosse por você
Riscaria nomes em meu caderno
Ergueria uma redoma invisível
Sufocaria o canto dos ventos
E o açoite nu da chuva fria
Redigiria prosas eróticas
Sem perder a linha de meio
Bastaria apenas um gesto teu
Correria quilômetros sem respirar
Nadaria em mares bravios sem cansar
Te protegeria do frio com meus abraços
Embalaria o sono índico, restaurador
Varreria a fé que dissemina o caos
A fim de explicitar meu interesse
Roubaria a flauta mágica de Pã
Com os dedos pintaria epopéias
Em muros caiados de tinta fresca
Faria origamis e árvores de canela
Se acaso fosse, até me transformaria
Na mais cruel amazona para te defender
Quem sabe me despiria, para te embevecer

Chronology

(Flavia Lopes, janeiro de 2004)


I don't wanna cross the line,
Let us pretend life is fairly simple,
That no one has anything else to hide.
I've been here centuries ago, slow down,
Passion is a mine field, no one could know
Where they've planted bombs, six feet under.
I've foreseen many battles across the way,
Traded a few rhymes in lack of identity,
Ripped off pages to delete thoughts,
And still my voice is able to howl,
I'm undressing my tantric soul.

We're friends blessed by gods,
Our history doesn't need amends,
What there is to know, you've heard,
Future is a magic word unspoken,
I savor gray obscured clouds.

Our vision is limited,
Happiness, unprovoked,
My sin is like a Ferris wheel,
Time rolls the dices, don't hush,
Love is the key to our battle,
Step outside of this pitch,
It's a story to foretell.

Twenty-four hours passed on by,
A few more will.
I'm yours by right,
How may I say?
Tomorrow is the answer for today.

"Dressed up to the eyes
It's a wonderful surprise
To see your shoes and your spirits rise
Throwing out your frown
And just smiling at the sound
And as sleek as a shriek
Spinning round and round"

(The Cure in "Friday I'm in love")

Flavia Lopes, revelado às 12:54 AM
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Segunda-feira, Janeiro 12, 2004

"Another red letter day,
So the pound has dropped
And the children are creating,
The other half run away
Taking all the cash
And living you with the lumber,
Got a pain in the chest,
Doctors on strike,
What you need is a rest,
It's so easy now
Cuz you have friends you can trust".

(Queen in "Friends will be friends")



Clarividência? Ah... me poupem!!

(Flavia Lopes, janeiro de 2004)

Sonhando acordada


Mais um ano inicia-se... Quais mudanças ocorrerão nos próximos 12 meses? É pergunta recorrente em cada janeiro.
Visualizo homo sapiens conscientes em vez de bárbaros remando a favor desta contraditória evolução. Uma sociedade mais dinâmica, honesta, onde não te julgam ou modificam a forma de tratamento de acordo com a idade, classe social, moradia, recursos, crença ou mesmo gostos pessoais. Enfim, uma coexistência digna, sem violência, humilhações, calúnias, preconceitos e ignorância.
Vã expectativa de uma brasileira sardônica!!
A grande maioria das pessoas desconhece limites. Caminham por aí, a esmo, tropeçando umas nas outras, vociferando impropérios, rechaçando quem lhes parece medíocre (ou seja, quando sentem-se acuados), pisando em toda forma de vida que estiver no caminho sem o mais leve resquício de culpa.
Realidade não é apenas ter os pés no chão. É digerir o código morse transmitido em ondas cerebrais, a benção germinada em cada ser vivo - instinto.
E o instinto sussurra algo que fingimos não ouvir: nossa presença, apoio, compatibilidade e respeito podem influenciar positivamente outrem. Amadureci ao ser questionada e criticada por amigos, irmãos de sangue e entes queridos, mas não existem métodos (científicos ou alternativos) eficientes capazes de doutrinar quem já perdeu há muito o restante de humanidade.

Cara nova, velhos conceitos

O Mundo Capitalista brada, inflando o peito, alcovitando-se em jargões fabricados pela imprensa. A era Moderna não distingue certo e errado, integridade e corrupção (moral, trabalhista e lírica). Existe vida inteligente na mídia? Talvez, mas, verdade seja dita - me recuso a respeitar quem vive (ou sobrevive) acreditando em tudo que lhes empurram goela abaixo. Sou louca, pinel, destrambelhada... mas ai que tentem me dizer como pensar, o que vestir, como viver, portar, agir. É batalha perdida, não me alimento de lixo tóxico ou permito influências destrutivas.
Tragam recordações de infância, sonhos e diálogos carcomidos à tona. Ao que tudo indica, não somos marcados ou produzidos em série. Personalidade, desde o radical significa peça única sem cópia autenticada.
Vocifero contra tudo o que revira meu estômago e amarga a indecência plástica de meus dedos.

Em pauta

- A falácia de que o berço cultural da cidade encontra-se na Zona Sul. Pior só a MPBG (música popular do Baixo Gávea) representada por Jorge Vercilo. E os indivíduos, no alto de sua egomania batem palmas e cantam alcoolizados em barzinhos pedindo músicas que ultrapassam os limites do chavão. Certamente desconhecem o compositor de "No tempo de Dondon", que tanto pedem, um dos clássicos de Nei Lopes (nascido e criado em Irajá), regravada e destruída por Dudu Nobre. Jamais ouviram Assis Valente ou mesmo o talentosíssimo Cláudio Jorge.
- A afirmação blasfêmica de que a Academia Brasileira de Letras abriga grandes nomes da literatura nacional. Ora, façam-me o favor!! Pobre Rachel de Queiroz!! Após seu falecimento a Academia cavou um poço sem fundo promovendo nada além de subprodutos destinados a uma facção pouco exigente e reacionária. Em terra de cego quem tem olho é Rei, até o Paulo Coelho supera os companheiros imortais.
- A grotesca distorção de valores, injetando cobiça, racismo e abusos a menores de idade. Quem pode negar que o namorado da caquética Ana Maria Braga, trocentos anos mais novo, é loucamente apaixonado? A conseqüência de tais modismos? Tão somente vulgarização da índole, dissabores, restrição mental, carência afetiva, traumas. A exaltação corriqueira de atitudes semelhantes incentiva as mais diversas formas de crimes sexuais.
Imaginem!! o "Cadernos de Cinema" da TVE transmitiu o filme "A menina do lado" e todos os convidados defenderam o relacionamento de uma criança com seu vizinho cinqüentão - agora até pedofilia é válida pelo visto.
- O parâmetro escolhido para classificar o que é notícia. Isto dá Ibope, vende, isto... não. Normalmente as matérias vetadas não possuem teor apelativo ou expressam opiniões contrárias ao status quo vigente. Ou seja, redigem matérias e até críticas, se possível for, desde que não sejam incisivas, densas, políticas demais. Tudo em um clima de fraternidade monetária de quem se importa unicamente em salvaguardar os próprios bolsos ou cargo.
A semelhança com o mundialmente conhecido Greenpeace, que pinta foquinhas com jet para evitar a caça predatória adotando uma postura covarde ao bater de frente com as monstruosas fazendas de ursos na China ou os banhos de sangue na costa japonesa, é assustadora.

Como dois e dois são quatro

Se você transforma um cão manso em objeto de rinha, por sobrevivência, ele se transformará em uma verdadeira máquina assassina. Dê-lhe carinho, um lar, amor, cuidados, alimentação balanceada, mimos. Novamente, por instinto, ele resgatará a antiga memória tornando-se não apenas leal e dócil mas grato, leal até o fim dos dias.
Agora, traga um crocodilo para dentro de casa. No início, será um pequeno lagarto, esfaimado, apático, distante. Com o passar do tempo, ele cresce. Torna-se maior, mais forte, com serras aonde deveria estar os dentes... e te devora.

Obs. 1: Metáfora a parte, pobres répteis que nada tem a ver com a história.

Obs. 2: Amigos, não percam tempo, ponderem e questionem se vale a pena tentar desfazer um mal calcificado. Infelizmente não temos superpoderes e desde o Big Bang nossa espécie é livre. Não se pode corrigir o que é imutável. Temos longos caminhos a percorrer, braços, ombros, línguas, sotaques e relatos pela frente.

"E até lá, vamos viver,
Temos muito ainda por fazer
Não olhe pra trás,
Apenas começamos"

(Legião Urbana in "Metal contra as nuvens")

Quando o vazio se revestir de som

(Flavia Lopes, janeiro de 2004)


Um dia havemos de conhecer outros seres humanos,
No momento, somos poucos, entrelaçamos braços
Como a proteger-nos mutuamente, esperançosos -
Secto benquisto, desprovido de ódio e ganância -
O silêncio abre portas convidando-nos a entrar,
Não titubeamos ante o combate humanitário.
Há irmãos urbanizados em busca de alegria,
Mascareiros dilapidando réplicas bestiais.
O ciclo de repúdio ao tormento inicia-se,
Façam suas apostas o quanto antes, é hora!
Já realinhamos as badaladas do pêndulo egrégio,
Não desembestamos ao léu em campos radioativos.
O tempo não envia telegramas ou escorre lentamente,
Ganhamos ou perdemos, entre nós não há disputas,
Falem de si, não aprisionem-se a meias-palavras,
Liberdade é tão somente o primeiro passo!

Amálgama

(Flavia Lopes, janeiro de 2004)


Um ponto de partida
O sabor da eloqüência
Múltiplos arrepios cervicais
A esfera tridimensional da idéia
Bulbos a ponto de germinar
Imã magnético positivo
O transe contínuo
Possibilidades
Compaixão
Iniciativa
Verdade
Ostracismo
Desvio de rota
Senso mediúnico
Fraternidade
Genealogia
O estupor rubro
Do sangue nas veias
Palavras suspensas no ar
Uma taça já tragada
De gole em gole
Metade cheia
Incandescência
Ataques rasantes
Choque de planetas
Meu universo de palavras
Tua compreensão da malícia
Eis a minha definição de poesia

"Heart don't fail me now
Courage don't desert me
Don't turn back now that we're here.
People always say
Life is full of choices
No one ever mentions fear"

(Aaliyah in "Journey to the past")

Flavia Lopes, revelado às 3:05 AM
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Terça-feira, Dezembro 30, 2003

"When you're weary, feeling small
And tears are in your eyes
I'll dry them
I'm on your side,
Oh, when times get rough
And friends just can't be found
Like a bridge over troubled water
I will lay me down".

(Simon & Garfunkel, "Bridge over troubled water")


Direito de resposta

(Flavia Lopes, dezembro de 2003)


Há três coisas que me tiram completamente do sério: injustiça, mentiras e estupidez.

Não há como negar o último tópico...
Refiro-me a pessoas sem noção alguma do que estão dizendo, julgando-se coerentes e até geniais, utilizando palavras difíceis quando desconhecem o significado.
Pessoas sem tato, que por uma crise de ciúme (ou inveja) fazem questão de alfinetar, tão somente por serem incapazes de digerir o que foi dito. Lembram os monges copistas, que tinham em suas mãos verdadeiras obras-primas, relatos e escritos confidenciais, reproduziam traço a traço, floreando a letra...mas eram analfabetos.
Pessoas que fazem questão de te tratar com a maior intimidade frente a outros ou mesmo téte-à-téte, mas não pensam duas vezes antes de falar pelas costas e se regozijam (talvez) ao ver alguma brecha para te contradizer, sem imaginar o quanto se encontram em posição vexatória, tamanho o despropósito e inconsistência lógica.

Injustiças me descontrolam por completo, perco a linha de raciocínio, perco a calma, vocifero. Não digo apenas injustiças contra amigos e entes queridos, mas toda e qualquer forma de humilhação, grosseria, ganância, ludíbrio, mercenarismo.
Uma senhora na fila do supermercado sendo deixada para trás por outrem que lhe passa a frente, animais feridos e maltratados, crianças esquálidas morrendo de fome ao lado de pais bem nutridos, idosos abandonados em casas de saúde, um time garfado em seu próprio estádio, a total falta de reconhecimento de artistas talentosos e a efusão de lixo comercial divulgados através do jabaculê, a inoperância da polícia recebendo a sua parcela generosa ao fazer vista grossa, patrões que destratam funcionários dedicados, toda e qualquer violência física, furtos, assaltos, lavagens de dinheiro, a troca da pluralidade cultural brasileira por subprodutos americanófilos de segunda mão, incapacidade de respeitar quem valoriza as raízes nacionais, corres-corres desembestados ante uma propaganda endeusando lixos que já vem malhados (como disse Cazuza), ausência de amor e compaixão.

Mentiras? Nem preciso dizer o porquê. Quem não recebeu facada ao confiar na discrição e sinceridade do ouvinte ou se espantou ao descobrir, por intermédio de terceiros, que fulano de tal - cuja a relação se resume a meros cumprimentos - não vai muito com a sua cara, tachando-lhe mil defeitos, beirando o limite do clichê.
Quem nunca sentiu na pele o sabor da traição (sem conteúdo romântico, tão somente amizade nua)?
Existem mentiras e mentiras, ambas inexplicáveis. Em vinte e cinco anos, sempre que omiti ou floreei verdades, ocultei fatos (de Lopes para Lopes), seja por superproteção, medo ou vergonha me senti completamente aprisionada. Não existe benefício, apenas uma carga negativa que te exaure por completo.
A idealização precisa ter sabor de autonomia plena, o fervilhar de brotos germinando, um quê de resistência indigesta.

Um certo alguém da minha família preenche todos os quesitos... um ser estranho que faz parte, não do meu dia-a-dia, mas desta sociabilização obrigatória (ingrata árvore genealógica). Não é a toa que agradeço todos os dias por meus pais, irmãos e amigos.

"(Pegue duas medidas de estupidez
Junte trinta e quatro partes de mentira
Coloque tudo numa forma
Untada previamente
Com promessas não cumpridas
Adicione a seguir o ódio e a inveja
As dez colheres cheias de burrice
Mexa tudo e misture bem
E não se esqueça: antes de levar ao forno
Temperar com essência de espirito de porco,
Duas xícaras de indiferença
E um tablete e meio de preguiça)"

(Legião Urbana in "Os anjos")


Longe de estar de mau-humor... ao contrário. Digamos que o texto surgiu quase por acaso, enquanto ouvia "Os anjos" e lembrava de certos episódios que ocorreram nos últimos dias, mais hilários (proporcionaram gargalhadas mil) do que um bom motivo para dor de cabeça.
Ahhhhh estou atravessando uma fase indescritível... Se houvesse cotações no dicionário felicidade atingiria a pontuação máxima.
Ora! Dói incrivelmente quando somos agredidos verbalmente por alguém muito próximo, articulado, inteligente, que não apenas conhece seus pontos fracos mas sabe quando usar algo contra você... o impacto é diferente quando a harpia em questão ostenta um Q.I. abaixo da média, beirando o ridículo (daí o motivo de tantos relatos sardônicos, escrachados).
Meu sangue, instinto e regência seguem outro rumo - campos de flores silvestres brotando em pleno verão. Há uma estrada a percorrer, caminhos a traçar, um só ensejo lírico, uma idoneidade ferrenha, páginas e páginas em branco prestes a serem escritas.

A independência dos pés
(Flavia Lopes, dezembro de 2003)


Fatalismo, doutrina,
Quando a razão perambula
Conduzida ao sabor do vento
Anuncia o estupor liberto.

Se acaso o encontrasse
A voz seria pouca,
Fantasias viriam à tona,
Polinizaria botões de jasmim,
O discurso longo se tornaria breve,
Léguas de poesia ocupariam uma estrofe,
Cinza-enegrecido se mimetizaria em azul-safira -
É este impacto que tua presença causaria,
Por ventura, teus passos entenderiam
Que os meus já perderam o rumo,
Singrando oceanos espectrais
Em ventanias incisivas,
Meu desejo insone seria teu.

Deslize, antologia,
Quando o pulso se rasga
Traindo meus pensamentos
É hora de silenciar a voz.

"From the bottom, it looks like a steep incline
From the top, another downhill slope of mine
But I know, the equilibrium's there"

(Faith no More in"Falling to pieces")

Flavia Lopes, revelado às 2:43 AM
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Sexta-feira, Dezembro 19, 2003

"Oh-y, my head,
In desolate places we'll find our bread,
And everyone see what's taking place, oh-oo-wo! -
Another page in history ".

(Bob Marley in "Trench town")


Três tempos

(Flavia Lopes, dezembro de 2003)

Lâmpada maravilhosa (ou mais vale ir a luta)


Se eu pudesse aprender três coisas de estalo, concedidas pela lei do menor esforço, optaria por dádivas um tanto inusitadas.
Primeiro, a capacidade de metamorfosear-me em qualquer ser vivo. Melhor do que ler pensamentos é tornar-se pequeno o bastante para ouvir o que dizem de você (uma mosca seria o ideal desde que a Q.I. não se equiparasse ao da transformação).
Segundo, o dom de manipular o tempo, fazendo com que uma hora abrigasse dias, revivendo momentos inesquecíveis ou simplesmente matando a saudade de tantos que partiram.
Terceiro... ah, não sei! Foi difícil pensar nos tópicos acima...! Com toda sinceridade, o melhor do aprendizado é digerir pouco a pouco o tanto que a vida nos oferece. Usando lombadas e trancos como escudo para intempéries vindouras e saboreando a melhor parte, que uns chamam de amadurecimento, outros de conquista... para mim significa descoberta e busca. É como decifrar enigmas ou encontrar a paisagem que vimos anteriormente em sonho.

Cinéfila

Madame Satã, de Karim Aïnouz, diretor e roteirista - o mesmo que esbanjou lirismo em "Abril Despedaçado" (Walter Salles) - supera todas as expectativas, desenvolvendo com rara beleza e sensibilidade a história de um grande mito da cultura nacional, marginalizado pelo preconceito. Confronta lirismo, instinto bruto e a idealização de um sonho com a dura realidade de uma sociedade homofóbica e racista.
Em foco a boemia cultural da zona norte, os bares centenários da Lapa, os tamborins de Noel, a poesia ferida de mambembes, seresteiros e sambistas.
O Homem que Copiava, é quase indescritível, tamanha a criatividade. A direção e escolha de cores lembram Tykwer, ainda assim, é totalmente experimental e diferente. Palmas a Fiapo Barth, diretor de arte, que utiliza técnicas de enquadramento arrojadas, mesclando a animação de Allan Sieber com uma edição de filmagem de tirar o fôlego.
Destaque para o talentosíssimo e camaleônico Lázaro Ramos e o diretor, Jorge Furtado, membro do núcleo Guel Arraes, revelando nomes como João Falcão, roteirista da minissérie "Sexo Frágil", outra grata surpresa em meio a mediocridade global.

Oba-oba

Pois é, fim de ano é um Deus-nos-acuda, corremos atrás do tempo para fazer não sei o que, corrigir isto e aquilo, embrenhar-se no denso mar das compras, montar a árvore e o presépio, arrumar a casa com enfeites natalinos, sinos, raminhos de parreira no umbral das portas e tudo mais para a virada do ano.
Conselho é bom quando se pede, então ao invés de sugerir mil coisas digo apenas isto: não percam tempo elaborando uma lista, idealizando o Reveillon perfeito.
Façam tudo neste instante - 24 horas é tempo demais. Um dia de cada vez. Uma batalha por noite. Um ano inteiro passa sem pedir licença enquanto esquematizamos idéias mecanicamente programadas. Façam uma lista não com o que pretendem mudar, das coisas simples às mirabolantes e sim com tudo o esperam viver em 2004.

"Não quero lhe falar, meu grande amor,
Das coisas que aprendi nos discos,
Quero lhe contar como eu vivi
E tudo o que aconteceu comigo."

(Belchior in "Como nossos pais")

Ritual

(Flavia Lopes, dezembro de 2003)


Amor
Lábios colidem
Paixões revelam-se
Meu paladar te decifra
Âncoras frias te estancam

Herdeiro da Bossa
Tateando o sol a pino
Rebento de supernovas

A sentença é o antônimo da luta
Destrocei pilhas de granito
Meu sopro tem seqüência dupla

Proteja nomes extintos
Em cantigas de roda
Renasça do limbo

Ondas bravias amansam
Tua palavra me desterra
A sedução infiltra-se
Noites exprimem
Calor

"When your day is through, and so is your temper,
You know what to do, I'm gonna always be there.
Sometimes if I shout, it's not what's intended,
These words just come out, with no gripe to bear."

(When in Rome in "The promise")

Flavia Lopes, revelado às 3:23 AM
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Domingo, Dezembro 07, 2003

"Searching in the darkness, running from the day
Hiding from tomorrow, nothing left to say
Gathering up our courage, ready for the fight
Howling in the shadows, till we start to bite"

(Kiss in "Creatures of the night")


Quebrando o gelo (ou eis que o Damsel se tornou pessoal!)
(Flavia Lopes, dezembro de 2003)

Introversão vs. Impulsão


A princípio o Damsel surgiu como um espaço alternativo para poemas e textose etc.. ou o que desse na telha. Daí se transformou em um caderno de versos, mas sempre sem conotação pessoal direta.
Puxa...! Estou em uma fase tão inspirada que me deu vontade de mudar a temática a forma de interagir (senti uma pontinha de inveja do Loucura Sativa também, admito!)
Afinal, qual é a graça se não explicitamos quem somos, mesmo que ligeiramente? Sou o que escrevo, é o que sempre disse a todo verdadeiro amigo.
Tantas vezes quis publicar uma crônica (ou...sei lá!) e evitei - nóia, total e completa só para não descaracterizar algo que no fundo ultrapassa limites.

Reza a lenda

Estou sempre fazendo e pensando em mil coisas ao mesmo tempo mas algumas exigem total e completa atenção (melhor seria dizer "entrega").
Ocorre em três ocasiões:
- Quando ouço Gótico, Punk e MPB - prefiro (e curto muito mais) ouvir sozinha, viajar. Deixo o Rock anos 70 e 80, o Ska e o Progressivo, estilos que tanto amo, para dividir com os amigos mais íntimos e delirar "em harmonia".
- Quando sinto esta necessidade física e entorpecente de sair digitando poemas, idéias para contos ou crônicas, textos-desabafos, o que der na telha - sem contenção de vocabulário, normas ou refugos.
- Quando encontro a mais perfeita conjunção física - transe verdadeiro, sem repressões ou limites. Ondas de êxtase, ritmo, criatividade, ousadia, preliminares, simetria de pensamento.
Como bem disse Mário de Andrade, "Amar: verbo intransitivo".

Terra e Fogo, Calor e Tempestade

Depois de ensandecer e beirar o transe no show do Cordel do Fogo Encantado uma boa pedida é ficar atento ao que está rolando no circuito teatral. Os paulistanos podem aproveitar e assistir ao grupo Moitará, cariocas do Flamengo especialistas em máscaras, em cartaz no TUSP com a peça "Imagens da Quimera", focado na cultura oriental. O espetáculo é de uma beleza performática inimaginável. A entrada custa apenas dez reais e uma vez por semana (basta se informar) apenas um quilo de alimento não-perecível.

"It's just another day - when people wake from dreams
With voices in their ears - that will not go away"

(Oingo Boingo in "Just another day")

Pane
(Flavia Lopes, dezembro de 2003)


Relâmpagos atingem
Os cabos de hipertensão,
A silhueta à prova de choques,
Os pára-raios de alta tecnologia,
A canaleta de idéias dispersas,
O coreto aceso nas praças,
As varandas apagadas.

Pingos de vela em móvel centenário,
Falta de luz, ar e conivência,
Quem me dera desvendar a essência
De meu nanquim libertário!

Ressurreições sonoras,
A mais fecunda voltagem,
Os subterfúgios dos amantes,
A fadiga sorrateira da ideologia,
O troco de resenhas verídicas,
As surpresas impactantes,
O deslocamento de pés.

Fases da lua no espelho repartido,
Nu ibérico, céu e liberdade,
Ah, se descrevesse a intensidade,
De meu broquel proibido!

Nebulosidade

(Flavia Lopes, dezembro de 2003)


Signo de Ar,
Meu corpo é feito de vento,
90% de água,
Diálise em pleno mar.

Sou louca,
Não displicente,
Tenho nome,
Divago, sinto
E até hoje prossigo,
Sem cruz ou medo de errar.

Quem devora o Mundo Novo?
Aonde fincam estacas
Delimitando o espaço?
Posses que não pagam a féria!

Quero ir além,
Nesta vã quimera,
Tenho fome,
Relato, conto
E ainda persigo
A eloquência de amar.

Somos tantos passageiros,
Quem nos reprime,
Tolhendo liberdade?
Faces que não calam a voz!

Língua de fogo,
Meu pulso é feito de tempo,
Um beijo ácido,
Orquídeas em broto.

"É quando as emoções viram luz
e sombras e sons, movimentos
e o mundo todo vira nós dois, dois corações bandidos
enquanto uma canção de amor persegue o sentimento
o zoom-in dá ré e sobem os créditos.
O amor é filme e Deus espectador"

(Lirinha in "Amor é filme")

Flavia Lopes, revelado às 12:45 AM
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Domingo, Novembro 30, 2003

"Fortes colunas de vento
Vinham desequilibradas
Num grande deslocamento
Em ondas desencontradas
As árvores se retorciam
Línguas de fogo desciam
Com toda brutalidade
O globo todo aluía
Parecendo que fugia
Aos sopros da tempestade"

(Cordel do Fogo Encantado in "Devastação da calma" (ou A Tempestade)")

Homenagem a Pernambuco
(Flavia Lopes, novembro de 2003)


Avesso do sofrimento,
Não tenho um pingo de susto
Cingindo a silhueta esguia
Se me falta tempo ou fôlego
Deixo as barbas de molho
Mergulho na poesia

Acesso do firmamento,
Não venho em brinde de curso
Fremindo a caneta tardia
Se me cala o verbo trôpego
Pincho as farpas do olho
Debulho na rebeldia

Instinto felino

(Flavia Lopes, novembro de 2003)


Tanto faz se minha lira é tão proscrita
Como santos de ouro ao pé do altar de mármore devastado.
Observaste o tempo? As nuvens plangem,
É a premissa contraditória da saudade em um céu purgado.

Temos a ganância viral fincada na espinha
Como aquarelas de cores pálidas ao fim da tempestade.
Reacendeste a chama? Os prados cantam,
É a fragrância de orvalho ao fim da térrea brutalidade.

Trago a ceia lúbrica em enxame de versos
Como fogos-fátuos à beira de um abismo insondável.
Fortaleceste o sonho? As línguas repartem,
É a biografia não-autorizada de uma persona mutável.

Blackout urbano

(Flavia Lopes, novembro de 2003)


Tudo o que encontra-se sob nossos pés
É transe congênito de vida renovada.

Já pensei em trocar a fantasia
Por filme de guerra
Em tempos de paz.
A hora do dilúvio predeterminado
Singra na maré alta do Rio de Janeiro,
Nuvens infladas fecham avenidas,
A nau desloca-se, toando a lira
Em tempos de guerra
Ao longo da paz.
Já cansei de saciar a heresia.

Terra molhada sob um vão de estrelas,
Areia branca enfeitiçando a madrugada fria.

"Herdeiros do fim do mundo,
Queimai vossa história tão mal contada"

(Cordel do Fogo Encantado in "Profecia Final (ou No Mais Profundo)")

Flavia Lopes, revelado às 9:06 PM
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Segunda-feira, Novembro 24, 2003

"If I had my way I'd take a boat from the river
Men go crazy in congregations
But they only get better one by one"

(Sting in "All this time")

Déja-vu
(Flavia Lopes, novembro de 2003)


Nesta ponta de orgulho
Há eventos insubstituíveis,
Segundas intenções, gracejos,
Pegadas em concreto fresco,
Experimento carnal.

Nesta concha acústica
Há momentos inesquecíveis
Fecundas perversões, arquejos,
Enseadas em teto romanesco,
Posicionamento letal.

Nesta ronda incógnita
Há segmentos indivisíveis
Profundas convulsões, festejos,
Reinvestidas em arabesco,
Enquadramento penal.

Realinhamento

(Flavia Lopes, novembro de 2003)


Feita de matéria bruta
Desejo insaciável
Carne, mangue
Punção lírica
Guerrilheira ostracista
Autocrítica imperdoável
Poeta desencaminhada
Ação sofística
Epiderme, langue
Manejo biodegradável
Teia de artéria irresoluta

Seiva da proteína culta
Latejo desfrutável
Carde, sangue
Unção lívida
Perdigueira liberalista
Geopolítica inafiançável
Malagueta apimentada
Distinção ríspida
Concerne, exangue
Solfejo hiper inflamável
Candeia de etérea permuta.

"This life has no meaning unless we grow
(I know) no use for all the screaming unless we grow"

(Shelter in "Metamorphosis")

Flavia Lopes, revelado às 12:32 AM
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Segunda-feira, Novembro 10, 2003

"Now watch what you say or they'll be calling you a radical,
liberal, fanatical, criminal.
Won't you sign up your name, we'd like to feel you're
acceptable, respectable, presentable, a vegetable!"

(Supertramp in "The logical song")

Insônia
(Flavia Lopes, novembro de 2003)


Os olhos precisam ser lúcidos,
Fixos, sorrateiros ou exatos,
Sorvo o trovadorismo bacântico,
A face eclética, a voz densa.

As mãos precisam ser rústicas,
Libertinas, doutrinadas ou não,
Basta a masculinidade simétrica,
O gosto sublime, o tato ávido.

Os beijos precisam ser úmidos,
Pérfidos, roubados ou longos,
Troco a crendice pela ferocidade,
A saga desnuda, a trova fugaz.

Contraponto

(Flavia Lopes, novembro de 2003)


Havia algo cíclico
Em teu olhar fatal,
Ora insano, ora brando,
Vez por outra cego,
Tantas atento.
Fazia perguntas,
Pouco confessava,
Contávamos histórias,
Dividíamos gostos pessoais.
Meu dedos encontravam teus ombros
Em pleno mar aberto,
Beijamos, tocamos
Há poucos meses atrás,
Nem sempre é preciso cautela
De que adianta relembrar?
O cenário não mudou,
Aqui estamos.

Não apenas insinue,
Permita-se,
Eu te quero já,
Sem princípio ou fim,
É esta a hora!
Consume,
Não apenas instigue

Gemini

(Flavia Lopes, novembro de 2003)


Não precisamos de introdução,
Há um tonel de brisas soltas
Ungidas em gás hilariante,

Estamos promulgando uma nova estância,
Nossa lei é calar a sordidez humana.

Todos caminham religiosamente
Na mesma direção contrária,
A febre é traiçoeira, lute!

Somos remanescentes de povos andarilhos,
Nossa sina é vagar, sem rota definida.

"Gemini, gemini, geminiano
Este ano vai ser o seu ano
Ou senão, o destino não quis"

(Chico Buarque in "Sentimental")

Veraneia
(Flavia Lopes, 8 de novembro de 2003)


"A nossa indignação
É uma mosca sem asas
Não ultrapassa as janelas
De nossas casas

Indignação indigna
Indigna inação"

(Skank in "Indignação")

Flavia Lopes, revelado às 5:40 AM
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Quinta-feira, Novembro 06, 2003

"Sou um animal sentimental
Me apego facilmente
Ao que desperta o meu desejo"

(Legião Urbana in "Sereníssima")

DNA
(Flavia Lopes, novembro de 2003)


Respiro boemia,
Saliva morna,
Pingos de chuva,
Terapia audiovisual.

- Vejo-te lado a lado,
Criamos rituais improvisados,
Dois loucos sinfônicos -

Instante de mudez,
À espera do bote.

Transpiro rebeldia,
Cantiga épica,
Signos de vento,
Nostalgia espiritual.

- Bebo-te, letra a letra,
Concretizamos saraus fretados,
Dois roucos sardônicos -

Calmante de insensatez,
À deriva da sorte.

Modernista

(Flavia Lopes, novembro de 2003)


Relaxe! neste mangue propago
O vento e a tempestade campesina,
Ah!! Demos beijos prévios, mais um trago!,
Não perca a displicência vespertina,

Reage! nesta tarde relato
O tempo e insanidade libertina,
Já erguemos leitos régios, mais um bardo!,
Não trema ante a cadência bailarina.

Relate! neste transe espalho
O ungüento e saciedade peregrina,
Vá! temos feitos ébrios, mais um rastro!,
Não tema a impertinência clandestina.

"I'll push the wood (stir it, stir it, stir it together),
then I blaze ya fire;
Then I'll satisfy your heart's desire."

(Bob Marley in "Stir it up")

Flavia Lopes, revelado às 1:07 AM
Damsel's Comments

Quinta-feira, Outubro 23, 2003

"How long shall they kill our prophets
While we stand aside and look,
Some say it's just a apart of it
We've got to fulfill the book"

(Bob Marley in "Redemption song")

Semântica concretista

(Flavia Lopes, outubro de 2003)


Mantenho a temperatura alta -
Ponto de ebulição
Biorritmo acelerado
Sem ódio e desavença

- Gargalhadas soltas,
Explosivas, inóspitas,
Mediunidade apurada
Pinceladas insólitas

Isto e aquilo
Certo e errado
Distância e inclusão
Veloz ou lenta
Rítmica selvagem
Submundo canhestro
Dois ciclos, um eixo -
Palavra: redenção

Desenho a loucura em pauta -
Conto de perdição
Algoritmo impensado
Sem pódio e descrença

- Coincidências loucas
Sensitivas, incógnitas
Espiritualidade purgada
Temporadas eróticas

Nicho e asilo,
Cerne e pecado
Fragrância e sedução
Algoz ou senda
Mítica tatuagem
Subsídio romanesco
Dois gritos, um beijo -
Palavra: confusão

Rota
Inteira
Aos pedaços
Descrente
Nua
Boca
Veraneia
Aos tropeços
Prudente
Tua

Walking on thin ice

(Flavia Lopes, outubro de 2003)


Your last honest smile,
Epidemic joys,
Choking grieves,
Sunrises versus moonlights
Open voices dueling
Against smoked limited eyes,

Such a waste of thunder beneath us,
Such immortality cut and dried.

Miracle? Slightly so...

What have you seen,
Amid too many nights?

Forbid my sins, praise,
I'm harsh, untamed,
But I do speak with my bare eyes.

When the day breaks
Do you gaze or hide?

Sublimação

(Flavia Lopes, outubro de 2003)


Perder-me em tua lubricidade
Convalescer em teu ombro
Braços, peitoral, coxas
Músculo a músculo
Com meus lábios
Te amarrar
Ferir
Conter
Vendar
Sentir
Morder
Degustar
Enroscar minha língua na tua

- Duas taças de vinho
Uma dose de selvageria bruta

Neste meio tempo
Xingue, pragueje
Inverta, tateie
Açoite, surte
Enlouqueça
De novo.

Desvirtuar-me em tua boca
Estremecer em teu nexo
Virilidade, massagens
Ardente e intenso
Delicado e cru
Te seduzir
Untar,
Sorver
Compor
Munir
Ferver
Provocar
Reconhecer minha ânsia na tua.

- Dois cálices de fome
Uma pira de lascívia arguta

"Lost, in a snow field sky,
It'll make it alright to come undone now"

(Duran Duran in "Come undone")


Flavia Lopes, revelado às 1:33 AM
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Sábado, Outubro 11, 2003

"Se o mundo é mesmo parecido com o que vejo
Prefiro acreditar no mundo do meu jeito
E você estava esperando voar
Mas como chegar até as nuvens com os pés no chão?"

(Legião Urbana in "Eu era um lobisomem juvenil")

Autocontrole
(Flavia Lopes, outubro de 2003)


Não vale a pena

Supor que todos são quem aparentam ser,
Exigir que compreendam o seu ponto de vista,
Debater guerrilhas verbais e sofismas irredutíveis,
Rechaçar ações e preferências opostas às suas,
Entrega sem reciprocidade, polêmica sem critério,
Converter amizade em rito e amor em individualismo,
Repetir o mesmo discurso esperando uma reação diferente,
Ser estigmatizado, tragar ofensas inexatas, contradizer,
Acordar e não surpreender-se, viver e não exaurir-se.

É mais justo

Impor diferenças, ainda que nos julguem,
Sentir - amigos não distorcem palavras e laços,
Preservar a integridade sem recorrer à agressões,
Entender a diferença entre opinião e injúria,
Transpor retóricas canhestras e ultrapassadas,
Cair - a maior de todas as quedas precede a vitória,
Vociferar contra à insensibilidade reacionária, em protesto,
Ser necessário, autocrítico, cru, manter elos verdadeiros,
Persistir e não intimidar-se, ter ideais e não refugar.

Língua alternativa

(Flavia Lopes, outubro de 2003)


Deve haver alguma reação química
Quando o calor é tão escaldante -
Prestes a gerar um desmaio repentino
E o mar abranda, embaralhando sacramentos

- Ou não existe Ciência

Deve haver alguma condição karmica
Quando o humor é tão oscilante -
Prestes a causar um balaio libertino
E o sol debanda, fervilhando pensamentos

- Ou não existe Carisma

Deve haver alguma coesão lógica
Quando o sabor é tão impactante -
Prestes a narrar um ensaio vespertino
E a lua comanda, pavilhando firmamentos

- Ou não existe Poesia

"E ser artista no nosso convívio
Pelo inferno e céu de todo dia
Pra poesia que a gente não vive
Transformar o tédio em melodia "

(Cazuza in "Todo amor que houver nesta vida")


Flavia Lopes, revelado às 3:08 AM
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Terça-feira, Setembro 30, 2003

"Hey, take me to the room where the green's all green
And from what I've seen it's hot, it's mean"

(Queen in "Dragon attack")

Trovadorismo ilícito
(Flavia Lopes, setembro de 2003)


Noite alta, esconderijo,
Sinto no rosto vendado,
O roçar da barba por fazer,
Ele me devora, nutre, sacia,
Arrisca um poema erótico,
Em carícias maliciosas,
Línguas enroscadas,

Com a ponta dos dedos
Traceja minha silhueta,
Poro à poro, curva à curva
Em discursos improvisados,
Somos andarilhos errantes,
Párias incompreendidos,
Amantes vespertinos.

Um recital delirante,
Loucos da mesma espécie,
Fome abrupta, pascigo.

Testemunho

(Flavia Lopes, setembro de 2003)


Escrever é minha droga,
Réu confesso, confidencio:
Me privem, dispam, ceguem
Todos os meus vícios materiais,
Dou substância ao eu-físico,
Prefiro insensatez a drama,
Tenho fome de idéias.

Dê-me Bossa Nova, marés,
Violões, serestas e luares -
É preciso declamar um poema,
Com a mais humana das vozes.

Há previsão de chuva,
O céu soluçando, treme,
Provando o gosto salgado -
Depois, silencioso, cala -
É cinza, pó e nada.

"Vows are spoken
To be broken
Feelings are intense
Words are trivial
Pleasures remain
So does the pain
Words are meaningless
And forgettable"

(Depeche Mode in "Enjoy the silence")


Flavia Lopes, revelado às 2:16 PM
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Sábado, Setembro 13, 2003

"Eu vou levando a minha vida, enfim,
Cantando, que canto sim,
E não cantava se não fosse assim,
Levando, pra quem me ouvir,
Certezas e esperanças pra trocar,
Por dores e tristezas que bem sei,
Um dia ainda vão findar"

(Geraldo Vandré in "Porta-Estandarte")

Disritmia
(Flavia Lopes, setembro de 2003)


Uma relva com lírios multicores,
Teu corpo sobre o meu,
A noite - testemunha de acusação,
Luz fosforescente, lua fria -
Meu corpo sobre o teu,
O tempo - álibi de nossa conduta,
Horas afrodisíacas, fome crua -
Ávidas noites insaciáveis.

Um Ipê-Roxo com flores invernais,
Teus braços algemando os meus,
A montanha - palco de sofreguidão,
Garoa mítica, sanha pervertida,
Meus braços algemando os teus,
O tronco - cúmplice de nossa luxúria,
Nutriente necessário, céu anil -
Tórridos surtos inomináveis.

Ativismo
(Flavia Lopes, setembro de 2003)


Nada de novo no front,
Mudanças drásticas,
Reverberações ativas?
Quem as percebe,
Com o passar do tempo?

Estamos em menor número,
Somos fracos ou fortes,
Mas permanecemos vivos -
A luta é sangue, é desgraça.

Nada além de enxaquecas,
Providências judiciárias,
Lutamos em prol da vida!
Contenção de ira
Não traz benefício algum!

Estamos cientes, à espreita,
Somos o calor extinto,
Aglomeração concisa
Nos traz novos adeptos!

Nada sobrevive ao crime,
Impostos abusivos,
Castigos reincidentes?
Quem perde e quem ganha
Com o teu silêncio?

Estamos prontos, unidos,
Somos terra e fogo,
Conscientização apurada
Nos reintegra à causa!

"Os soluços dobram tão iguais
Seus rivais, seus irmãos
Seu navio carregado de ideais
Que foram escorrendo feito grãos
As estrelas que não voltam nunca mais
E um oceano pra lavar as mãos"

(Chico Buarque & Edu Lobo in "Meia-noite")

Flavia Lopes, revelado às 2:33 AM
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Discurso

Nascida e criada na boemia atemporal do Rio de Janeiro. Jornalista sem direção definida. Poeta por necessidade espiritual e física. Ecologista por acreditar que cada ser vivente possui a mesma reação perante a dor e o sofrimento como todos nós, seja por maus tratos ou abandono. Sensitiva, politizada, cabeça-dura, passional, impulsiva, ou 8 ou 80, liberal, selvagem, contraditória - humana, acima de tudo.
(Flavia Lopes)

Meus blogs

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Prólogo

Dramaticae Personae:
Poetic Damsel
Registro:
Flavia Lopes
Existência:
25 anos
Amálgama:
barroco, ultra-romantismo, simbolismo, surrealismo, cubofuturismo, modernismo
Inspiração:
Gregório de Matos, Fagundes Varela, Aleksander Pushkin, Alphonsus de Guimaraens, Federico García Lorca, Vladímir Maiakóvski, Florbela Espanca, Murilo Mendes, Manoel Bandeira
Exaustão:
Futebol, escaladas, trilhas, boxe tailandês
Estilos:
MPB, Bossa Nova, regionalista, punk, gótico, progressivo, surf, rock anos 70 e 80

Acervo:
Chico Buarque, Geraldo Vandré, Carlos Lyra, Nara Leão, Chico Science, Zeca Baleiro, Buzzcocks, The Clash, Sex Pistols, Joy Division, Bauhaus, Depeche Mode, Dire Straits, Midnight Oil, Queen
(one and only), The Police, The Smiths, Legião Urbana (Urbana Legio Omnia Vincit!), Tears For Fears

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